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RELATO DE UMA RELAÇÃO ABUSIVA COM UM NARCISISTA PERVERSO

Updated: Feb 6

Ele nunca gritou comigo. Jamais me agrediu fisicamente ou me ofendeu com palavras. Ele me torturava com seu silêncio, sua ausência e uma tristeza perene, quase sólida, pela qual eu me sentia responsável. Sua violência era muda e por isso mesmo tão difícil de identificar. E como ele não fazia “nada”, demorou para eu perceber e, principalmente, aceitar: aquela era uma relação abusiva. Ele era um narcisista perverso, um tipo altamente sofisticado de agressor. E eu era o seu alvo da vez.


Até aquele momento, eu não sabia que esse tipo coisa existia. Para mim, pessoas como ele eram apenas problemáticas, marcadas por experiências de vida dolorosas e que podiam ser curadas com uma boa dose de amor incondicional – que eu tinha de sobra, é claro. Se ele ainda não conseguia me amar da maneira que eu desejava, era só uma questão de tempo. Logo ele seria tocado pela minha ternura e teria sua couraça de guerreiro ferido derretida. Aprenderia com o meu exemplo de dedicação e entrega e voltaria a confiar em alguém. Finalmente, ele se renderia ao meu amor, ao nosso grande amor, e seríamos felizes para sempre-fim.


O que eu não sabia é que isso era impossível. E que tudo naquele universo de perversidade e perversão funcionava às avessas. Quanto mais eu demonstrava o meu amor, mais severamente ele me punia. Conforme eu alargava meus limites de tolerância e compreensão à sua dor, mais requintada se tornava sua violência silenciosa. Em vez de clássicas discussões e agressões, meu castigo eram mensagens não respondidas, sumiços e atrasos inexplicáveis, compromissos desmarcados em cima da hora. Ele me manipulava com seu estado de carência, tensão e melancolia sem fim.


Durante aqueles meses, eu perdi meu equilíbrio, meu brilho, minha saúde física e mental, minha vontade de viver. Eu estava devastada e ele, enfim, satisfeito. Seu objetivo estava alcançado: ele havia destruído aquilo que eu tinha de mais valioso e que ele tanto invejava secretamente: minha fé inabalável no amor. Aquela mulher radiante de beleza e alegria que ele conhecera havia desaparecido. Era hora de procurar outro alvo, outra fonte de energia para o seu desamor.


Foi neste ponto que a minha história começou a mudar. Afinal, apesar de tudo, eu ainda era eu: uma mulher que, como todas as outras, sabe que depois da morte o que se segue é o renascimento. O ciclo vida-morte-vida não pode ser quebrado, é eterno. Comecei a me abrir com outras mulheres da minha confiança, em especial aquelas que dominam a arte da ajuda. Uma delas, exímia taróloga, entre muitas coisas, após me atender em sua mesa, me perguntou: você já ouviu falar em narcisismo perverso ou perversão narcísica? “Não sei se é este o seu caso, mas acho que vale a pena pesquisar, Dani...”.


Iniciei então a minha investigação sobre o novo tema, sentindo que a pista estava correta. Para minha total perplexidade, encontrei milhares de ocorrências na internet e descobri que eu não era uma exceção no complexo mundo dos relacionamentos afetivos modernos. Eu fazia parte da regra das relações tóxicas e abusivas, e não sabia. Foi um baque. À medida que eu lia matérias, teses e relatos, afundava na cadeira como se um buraco gelado se abrisse abaixo dos meus pés contraídos. O quebra-cabeças começava a ser montado com a análise de especialistas, entrevistas e testemunhos de centenas de mulheres que, como eu, foram alvos de narcisistas perversos.


Mulheres fortes, com alto nível de instrução, bem sucedidas, bonitas, cheias de vida – este era o perfil de muitas delas. Assim como eu, elas acreditavam que tinham amor suficiente para si e para seus companheiros abusivos, que representavam mais um desafio a ser superado, talvez um pouco mais difícil que os outros, mas nada além disso. É aí que existe o encaixe perfeito e o jogo perde-perde começa. De um lado, alguém disposto a dar tudo. Do outro, alguém determinado a não aceitar nada – o narcisista perverso apenas toma quando lhe convém.


Antes desse episódio, eu achava que narcisistas eram aquelas pessoas apaixonadas por si mesmas e que sempre se acham o máximo. Na minha cabeça, eram aqueles caras super vaidosos, identificados com sua beleza e seu êxito social, sempre rodeados de belas mulheres. Jamais me envolveria com um tipo desses, claro. No entanto, descobri na minha experiência que os narcisistas são pessoas que criam um personagem, se apaixonam por ele e vivem em função de sustentar essa figura fictícia, custe o que custar, a quem custar. Ele pode ser, inclusive, o doente, o fracassado, o perseguido, o azarado, a eterna vítima.


No meu caso, esse personagem era “o triste”. Sobre sua cabeça havia sempre uma nuvem escura, mesmo sob o sol de um dia de verão. Mesmo comigo, com todo meu amor servido em uma grande bandeja de ouro. Nada foi suficiente, nunca. Era como se ele me dissesse com aquele olhar opaco: ainda não é o bastante. “Vamos, se esforce mais! Não fique feliz ainda, por que eu não estou”. Sua tristeza era uma adaga sempre cravada no meu peito.


O narcisista perverso nasce de um trauma com a mãe logo no início da vida. Segundo o que sei, este transtorno de personalidade acomete homens, principalmente. Quando bebê, este sujeito não recebe o amor que precisa de sua progenitora (o que pode acontecer por diversos motivos, voluntários ou não) e partir desta dor, ele cria um personagem que será alimentado por toda a sua vida e que terá como função principal punir o mundo, seu eterno devedor - assim como sua mãe. Ele não cria vínculos afetivos. Ele não é capaz de amar. Ele é doente. E você, mulher, não é capaz de salvá-lo. Você não será a exceção, será o próximo alvo.


Não importa o quê você faça, o que você der. Ele vai desprezar, mas vai tirar de você aquilo que lhe é mais precioso e nunca vai entregar o que você mais deseja. Em casos mais graves de narcisismo perverso, que pode chegar à psicopatia, as agressões são verbais e físicas, chegando a morte.


Por mais que a gente tente se enganar, colocando numa balança viciada ao nosso suposto favor os prós e contras desse tipo de relação, que muitas vezes é rotulada como “a dos sonhos”, no fundo toda mulher sabe quando não está sendo amada e não o será. Para algumas, a aceitação desta realidade emerge em poucos dias, para outras custa uma vida. Para mim, a experiência durou cerca de um ano e foram necessários quase nove meses de recuperação. Neste período, recorri a toda ajuda que pude.


Foi um intenso processo de cura que começou com este entendimento racional do tipo de pessoa com a qual eu estava lidando e da relação que eu estava sustentando. Depois veio a parte ainda mais difícil: admitir que eu não era uma vítima e olhar pra dentro de mim com total sinceridade pra descobrir que parte minha atraiu um narcisista perverso e, acima de tudo, se sentiu atraída por ele.


É duro admitir que só atraímos aquilo que nos é semelhante e, logo, toda aquela perversidade e perversão se encontrava, em algum nível, dentro de mim mesma. Essa é a verdade, que nunca dói (o que dói é a mentira) e que liberta. Entendi que eu atraí e me senti atraída por uma parte minha que estava sendo negada e que foi representada através deste parceiro que tanto amei de uma maneira super dimensionada para que eu, agora sem saída ou desculpas, pudesse, enfim, reconhecê-la, aceitá-la e curá-la.


Esse é um sofisticado mecanismo da alma para a nossa reintegração e evolução. Quando algo que precisa ser visto e transformado em nós é excluído por conta do nosso autojulgamento, atraímos inconscientemente situações e pessoas que possam representar no palco da vida estes aspectos da nossa própria ignorância, como injustiça, preconceito, inveja, culpa e violência. Tudo não passa de artifício para fazermos o caminho de volta ao amor.


Para fazer este percurso, contei com muito auxílio de todos os tipos. Pessoas, principalmente mulheres, que me ajudaram em processos de limpezas, cortes, cura e reconexão com a minha própria alma. Sem elas, não teria conseguido sair daquele ciclo vicioso de sofrimento, culpa e punição. A partir do autoperdão e da autocompaixão, aquela experiência traumática foi sendo ressignificada e se transformou em uma grande bênção, que permitiu que eu mudasse um padrão de relacionamento criado e cultivado por mim durante muitas vidas.

Aquele homem que em algum momento eu considerei como algoz hoje vejo como um verdadeiro mestre, um ser humano que, como eu, está no seu processo único de evolução e que, no seu próprio tempo, encontrará por si mesmo meios de se curar.

Enquanto escrevo este texto, não existe nenhuma identificação ou reação emocional a essa história. Hoje, toda a dor que vivi foi transformada em força, poder de criação e realização pessoal. Vivo um casamento sagrado, uma relação afetiva absolutamente saudável, ética, leve e bela, como toda parceria deve ser. Uma convivência que me faz bem, me deixa mais cheia de energia e vontade de viver. Não preciso me esforçar para agradar meu companheiro, só preciso ser eu mesma e vice-versa. Isso é amor. Ao contrário do que somos levados a acreditar através de músicas, poemas e filmes, onde há jogo de poder, dor e sofrimento não existe amor. É este o padrão afetivo que precisamos mudar dentro de nós.


Se você leu este texto até aqui, provavelmente se identificou com minha história de alguma forma. Se ainda estiver numa relação com um narcisista perverso, procure ajuda para sair dela, pois sozinha é simplesmente impossível. Há inúmeros recursos para isso. Se conhece uma mulher que esteja nessa situação, compartilhe este artigo, pois pode ser útil para sua autoconscientização. Não a julgue, ela já se sente suficientemente envergonhada e culpada, pode acreditar. Apenas ofereça apoio. A cura de uma mulher é a cura de toda a humanidade.

(Por Dani Mueller) #relacoesabusivas #perversãonarcisica #narcisismoperverso


P.S: para as irmãs que precisarem, por favor, é só chamar!!! Tati - @semeiavida


Ninguém solta a mão de ninguém / Nobody releases anybody's hand

REPORT OF AN ABUSIVE RELATIONSHIP WITH A PERVERSE NARCISIST - He never yelled at me. Never assaulted me physically or offended me with words. He tortured me with his silence, his absence and a permanent sadness, almost solid, and which I felt responsible for. His violence was mute and therefore so hard to identify. And as he didn’t ‘do anything’, it took a long time until I’ve realized, and mainly, accepted: this was an abusive relationship. He was a perverse narcissist, a highly sophisticated kind of aggressor. And I was ‘that time’s target’.


Until that moment, I didn’t know this kind of thing existed. For me, people like him were just problematic, marked by painful life experiences and that could be healed with a good dose of unconditional love – that I had tons to share, of course. If he couldn’t love me in the way I wanted, it was just a matter of time. Soon he would be touched by my tenderness and would have his hurt warrior armor melted. He would learn with my example of dedication and surrendering and would trust someone again. Finally, he would surrender to my love, to our great love, and we would be happy ever after – the end.


What I didn’t know is that this is impossible. And that everything in that perversity and perversion universe worked upside down. As more I showed him love, more severely he punished me. As I enlarged my tolerance and comprehensive boundaries to his pain, more refined his silence violence became. Instead of classical arguments and aggressions, my punishments were non-replied messages, disappearances and inexplicable delays, appointments cancelled just before its time. He manipulated me with his state of need, tension and endless sadness.


During those months, I lost my balance, my light, my physical and mental health, and my will of living. I was devastated and he, satisfied, at last. His goal had been reached: he had destroyed the most valuable thing and that he secretly envied: my unshakable faith in love. That woman full of beauty and joy he had met had disappeared. It was time to look for another target, another source of energy for his disaffection.


That’s when my story started to change. After all, despite everything, I was still me: a woman, that like every other, knows that after death comes the rebirth. The cycle life-death-life cannot be broken, it’s eternal. I began to open up with other women of my trust, specially those who naturally know the Art of Help. One of them, a great tarologist, among other things, after seeing me, she asked: have you ever heard of perverse narcissism or narcissistic perversion? ‘I don’t know if that’s your case, but I believe it’d be worthy to research it, Dani…’

So I started my investigation on the new theme, feeling that the clue was right. For my total surprise, I found thousands of cases on the internet and discovered I wasn’t an exception in the complex world of modern intimate relationships. I was part of the rule in toxic abusive relationships, and I didn’t know. That hit me hard. While I was reading those articles, thesis and stories, I sank in my chair as if a cold hole was opened under my feet. The puzzle was being put together with the specialists analysis, interviews and testimonies of hundreds of women who, like me, were perverse narcissist’s targets.


Strong women, with high instruction level, successful, beautiful, full of life – that was the profile of many of them. Just like me, they believed they had enough love for themselves and for their abusive partners, who represented more of a challenge to be overcome, maybe a little harder than the others, but nothing more than that. That’s where the perfect fit is and the ‘lose or lose’ game begins. On one side, someone willing to give everything. On the other, someone determined to not accept anything – the perverse narcissist only takes when it’s convenient.


Before this whole thing, I used to think that narcissists were those people who were in love with themselves and that always think they are the best. In my mind, they were those guys super conceited, identified with their beauty and their social success, always surrounded by beautiful women. I would never get involved with a guy like that, for sure. Therefore, I found out through my experience that narcissists are people who create a character, they fall for it and live for this fictitious person, no matter the costs. He can be the sick, the loser, the chased one, the unlucky one, the eternal victim.


In my case, the character was the ‘sad one’. Above his head there was always this dark cloud, even on a sunny summer day. Even with me, with all my love served on a big gold tray. Nothing was enough, ever. It was as if he told me with that dim look: it’s not enough yet. ‘Let’s go, work harder! Don’t be happy yet, because I’m not.’ His sadness was like a dagger always in my chest.


The perverse narcissist is born from a trauma with his mother in the beginning of his life. According to what I know, this personality disorder affects men, mainly. When a baby, this person doesn’t receive the love he needs from his mother (this can happen for many reasons, volunteerly or not) and from that pain, he creates a character that will be nourished for a whole life and that will have as the main function to punish the world, his eternal debtor – just like the mother. He is sick. And you, woman, isn’t able to save him. You won’t be the exception, you will be the next target.


It doesn’t matter what you do, what you give. He will disdain, but he will take from you what is most valuable to you, and won’t ever give you what you want the most. In the most severe cases of perverse narcissism, that may lead to psychopathy, there are physical and verbal aggression, even death.


As much as we try to cheat ourselves, setting vicious scales in ‘our favor’, the pros and cons of that kind of relationship, that many times is labeled as the ‘dream relationship’, deep down every woman knows when she isn’t loved and never will. For some, the acceptance of that reality emerges in a few days, for others it takes a lifetime. For me, the experience took about a year and it was needed almost 9 months for recovery. On that period, I looked for all the help I could.

It was an intense healing process that started with rational understanding of the kind of person I was dealing with and of the relationship I was keeping. After that, the hardest part came in: admitting that I wasn’t a victim and looking inside with full honesty to find out what part of me attracted a perverse narcissist, and more, felt attracted to him.


It’s really hard to admit that we only attract what is similar to us, so, all that perversity and perversion was somehow, in some level, in myself. That is the true, which never hurts (what hurts is the lie) and that frees us. I understood that I attracted and felt attracted by a part of me that was being denied and that was represented through this partner I loved so much, in a super dimensioned way so that now, no excuses or way out, I could finally recognize, accept and heal it.


This is a sophisticated mechanism of the soul to our reintegration and evolution. When something needs to be seen and transformed in us, and is excluded because of our self-judgment, we unconsciously attract situations and people that might represent these aspects of our own ignorance in the stage of life, like injustice, prejudice, jealousy, guilt and violence. Everything is a tool to make us go back to love.


In order to walk this pathway, I counted on with the help of all kinds. People, mainly women, who helped me in cleansing, cutting, healing and reconnection with my own soul processes. Without them, I wouldn’t be able to get out of that vicious cycle of sorrow, guilt and punishment. From the self-forgiveness and self-compassion, that traumatic experience was little by little transformed into a great blessing, that allowed me to change a pattern of relationship created and cultivated by me for many lives.


The man that I once considered as my tormentor, I now see him as a true teacher, a human being, that, just like me, is on his unique evolution process and that, in his own time, will find for himself the means to heal.


While I write this text, there’s no identification or emotional reaction to this story. Today, all the pain I lived was changed into strength, creative power and personal success. I live a sacred marriage, an absolutely healthy relationship, ethical, light and beautiful, as all partnerships should be. A convenience that makes me good, leaves me more full of energy and will of living. I don’t need to struggle to please my partner, I just need to be myself and vice-versa. This is love. Contrary of what we are led to believe through music, poems and movies, where there’s this game of power, pain and suffering, there’s no love. It’s this affection pattern that we need to change inside of us.


If you read this text until here, you probably identified yourself with my story somehow. If you’re still in an abusive relationship with a perverse narcissist, find help to get out of it, because alone is very much difficult, if not impossible. There are innumerous resources for that. If you know a woman who might be in this situation, share that article, it might be useful for her self-awareness. Don’t judge her, she already feels embarrassed and guilty enough, believe me. Just offer help. The healing of a woman is the cure of all human kind.

(Author: Dani Mueller – Translated by Tatiana Lopes) #abusiverelationships #narcissisticperversion #perversenarcissism


P.S: for the sisters who need, PLEASE, feel free to contact!!! Tati - @semeiavida 🌱🌸🙏🏽

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